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ALDEIA DA LUZ: DO PROGRESSO À SAUDADE DA LUZ QUE SE PERDEU

A visita à Aldeia da Luz era obrigatória no nosso roteiro pelo Alentejo Interior. Gostamos de conhecer lugares históricos, mas a Aldeia da Luz é diferente, trata-se de conhecer a história do lugar. As notícias nos telejornais sobre o desaparecimento desta aldeia, sobre a sua submersão no imenso e tão badalado Reservatório Artificial de Água, faz parte do nosso imaginário infantil. Era um dia frio de Fevereiro de 2002, quando se fecharam as comportas da Barragem do Alqueva, deixando completamente submersa a antiga Aldeia da Luz.

Visitámos a aldeia mais famosa do Alqueva durante os dois dias que passámos na zona de Monsaraz, e queremos contar-vos a nossa experiência e porque não devem deixar de visitar este lugar.

Aldeia da Luz

Desde 2002 que a Aldeia da Luz ficou nas bocas do mundo. Esta freguesia, no concelho de Mourão, foi submersa após a construção da Barragem do Alqueva.

Os 423 moradores viram as suas memórias afogadas com a submersão da sua antiga morada. A 3km desse lugar, apenas assinalado, ao longe, por um pinheiro grande que avistámos da janela do Museu da luz, existe a nova Aldeia da Luz, com uma planificação de ruas e edifícios idêntica à existente, mas sem o brilho de antigamente.

Museu da Luz

Se quiserem ficar a conhecer um pouco da história da antiga e nova aldeia, bem como todo o processo de realojamento dos habitantes, podem visitar o Museu da Luz, que se situa junto à Igreja da Luz.

O bilhete custa 2€. Aos Domingos a entrada é gratuita até às 13h, bem como para menores de 15 anos, .

O objetivo do Museu da Luz é preservar a memória e oferecer uma viagem àqueles que são os vestígios do passado, das antigas técnicas de agricultura e daquilo que foi a vida dos habitantes da antiga aldeia da Luz.

O progresso...

Agricultura

A construção da Barragem do Alqueva permitiu a formação do Grande Lago Alqueva, um dos maiores reservatórios de água da Europa Ocidental. A albufeira tem uma extensão de 250 km2 e abrange cinco concelhos do Alentejo.

O nome Alqueva deriva de “alqueive” que significa “terra de pousio” ou “deserta”. De facto, era essa a realidade da região, com uma paisagem árida e seca. A escassez de água era um dos principais problemas. A construção da Barragem, para além da produção de energia elétrica, estava também associada ao desenvolvimento de um sistema de regadio que permitisse o desenvolvimento da agricultura e impedisse o abandono das terras do Alentejo Interior.

Turismo

O Alqueva é um mergulho no Alentejo profundo. Há uma vista soberba sobre um azul imenso rodeado de terras de ouro. A ponte que cruza o Guadiana e nos leva de Monsaraz à Aldeia da Luz, oferece-nos uma vista imperdível. As ilhotas, onde crescem sobreiros, emergem aqui e ali. A vista transmite-nos uma sensação de paz e tranquilidade. O Alqueva é sítio para nos demorarmos.

A albufeira é agora uma fonte de turismo para a região, quer seja pelas praias fluviais, desportos náuticos, percursos pelas aldeias ribeirinhas ou até as casas barco para dormir debaixo das estrelas.

O Alqueva foi o primeiro sítio do mundo a ser certificado pela “Starlight Foundation” como um “Starlight Tourism Destination”. A observação do Dark Sky do Alqueva foi uma das experiências mais bonitas que vivemos em Portugal.

Lembram-se quando visitaram planetários nas visitas de estudo da disciplina de ciências? Imaginem esse céu majestoso coberto de estrelas, galáxias e poeiras cósmicas, mas ao ar livre. Foi criada a Rota Dark Sky, que inclui alojamentos, restaurantes e empresas de animação turística, que pretendem dinamizar a região.

Houve então uma renovação, na qual a paisagem árida foi substituída pelo espelho de água do Alqueva e que permitiu a oferta de experiências que antes não existiam. No entanto, nada disto parece ter chegado à Aldeia da Luz.

A saudade...

O poeta João Chilrito Farias escreveu um dia sobre a Aldeia da Luz:

“Sou da Aldeia da luz
A que vai ser alagada
Calhou-nos esta cruz
Mas uma cruz tão pesada”

Chegámos à Luz a meio da manhã, vindos de Monsaraz. O que vimos foi um lugar deserto. Nem os 39° graus que se sentiam às 10h30 da manhã servem de justificação, pois estas temperaturas são algo normal para as gentes alentejanas.  Encontrámos uma aldeia pouco típica, casas de linhas retas, ruas vazias de tudo, carros, pessoas, animais, onde apenas se ouve o silêncio do Alentejo.

Na nova aldeia, perderam-se os degraus da entrada das casas, agora substituídos por linhas modernas. Os bancos do largo são os mesmos da antiga aldeia, mas agora vazios. As ruas são de calçada, mas largas, daquelas que não nos trazem o conforto e o espírito de comunidade dos lugares pequenos mas cheios de vida.

Se em 2002, as autoridades competentes transferiram cerca de 400 pessoas para as suas novas casas, já em 2012 eram apenas 297 os moradores da nova Aldeia da Luz, deixando cerca de 100 casas totalmente desocupadas.

Na nova Aldeia, a única estrutura exatamente igual é o cemitério. Esta gente viu os seus mortos serem desenterrados e enterrados de novo. Fizeram a última romaria da Senhora da Luz, lavados em lágrimas e nostalgia de uma luz que estava prestes a perder-se.

Aqui, parece que não chegou o progresso que havia sido prometido às gentes da aldeia. A dinamização do turismo que aconteceu na região do Alqueva, ficou longe deste lugar e a Luz parece ter perdido o brilho.

Mas, como tudo o que aconteceu é história, quisemos mergulhar nessa história, e visitá-la.

A estrada interminável para aquela que era a antiga Aldeia da Luz afogou os pedaços de pedra, mas deixou bem presente a saudade e a memória do que ali existiu. E enquanto nos for permitido, recordaremos sempre com saudade a eterna Aldeia da Luz que morreu para dar vida ao maior lago artificial da Europa, o maravilhoso Alqueva.

A nossa visita à Aldeia da Luz foi um misto de sentimentos. No entanto, a nossa sensação pende mais para a tristeza e uma energia de saudade mórbida. Se, por um lado, consideramos que o progresso é essencial e não podemos viver estagnados, por outro, pensamos que as acções daí resultantes são injustas e desumanas. Se o resultado é digno de se ver?  Isso é inegável, pois ninguém fica indiferente ao grande lago!

Não podemos esquecer o custo emocional de uma das experiências mais bonitas que se pode ter no interior profundo de Portugal. É, por tudo isto, que não devem deixar de visitar este lugar. Tentem sentir o que a população viveu durante aqueles dias e as marcas que ainda deixa no presente.  Todos somos responsáveis por não deixar morrer estes lugares e contribuir para que a Aldeia da Luz recupere a sua a alma.

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